terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Elementos da narrativa (revisão). Conto: UMA VELA PARA DARIO

 LEIA O CONTO:

UMA VELA PARA DARIO

Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo. Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque. Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.

Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado. A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida?

Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado à parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las. Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delícias da noite.

Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso. Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade, sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.

Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios.

Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio, quando vivo, só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.

A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto. Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos. Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.



(Texto extraído do livro Trevisan, Dalton. Vinte Contos Menores, Editora Record – Rio de Janeiro, 1979, pág.20. Disponível em https://static.recantodasletras.com.br/arquivos/4055417.pdf Acesso em 26 out. 020)


segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

MARCAS DA ORALIDADE

 

MARCAS DA ORALIDADE

Leia os textos abaixo e responda às questões relacionadas




TEXTO 01

Oswald de Andrade ANDRADE, O. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1971.

TEXTO 02

Puculando

 

Desesperado, o chefe olha para o relógio, e já não acreditando que o funcionário chegaria a tempo de fornecer uma informação importantíssima para uma reunião que estava começando, liga para/ o dito cujo…

 

"- Alô!" – atende uma voz de criança, quase sussurrando.

“- Alô. Seu papai está?"

"- Tá…" – ainda sussurrando.

" – Posso falar com ele?"

"- Não." – disse a criança bem baixinho.

 

Meio sem graça, o chefe tenta falar com algum outro adulto:

 

– E a sua mamãe? Está aí?"

– "Tá."

"- Ela pode falar comigo?"

"- Não. Ela tá ocupada."

"- Tem mais alguém aí?"

" – Tem…" – sussurra.

" – Quem?"

"- O "puliça"."

 

Um pouco surpreso, o chefe continua:

 

"- O que ele está fazendo aí?

"- Ele tá conversando com o papai, com a mamãe e com o "bombelo"

 

Ouvindo um grande barulho do outro lado da linha, o chefe pergunta assustado:

 

"- Que barulho é esse?"

"- É o "licópito"."

"- Um helicóptero!?"

"- É. Ele "tlôce" uma equipe de busca."

" – Minha nossa! O que está acontecendo aí ?"


E a voz sussurra com um risinho:

 

 

  

Adaptado de: https://wellingtonchristian.wordpress.com/2011/06/06/puculando/


  ATIVIDADES 



      .1 Os textos têm a predominância do uso da variante padrão da língua portuguesa ou da linguagem coloquial, do dia a dia?

 

2.      2.  Marque a alternativa que melhor poderia descrever a variante linguística que aparece no texto 01:

a.       Variante histórica – Relacionado às mudanças no falar no decorrer do tempo, da História (        )

b.      Variante regional – Em cada região as pessoas falam o português de uma forma diferente (        )

c.       Variante social - Dependendo da idade, escolaridade e posição social há mudanças na forma de falar (        )

 

 

3.     3.   Marque a alternativa que melhor poderia descrever a variante linguística que aparece no texto 02:

a.       Variante histórica – Relacionado às mudanças no falar no decorrer do tempo, da História (        )

b.      Variante regional – Em cada região as pessoas falam o português de uma forma diferente (        )

c.       Variante social - Dependendo da idade, escolaridade e posição social há mudanças na forma de falar (        )


 4.    Quais são as palavras do texto 01 que não estão de acordo com norma padrão? Reescreva-as abaixo de acordo com a variante padrão da língua portuguesa:

 

 

 

 5.  Quais são as palavras que aparecem no texto 02 que indicam que quem está falando é um bebê?  Reescreva, abaixo, 05 dessas palavras de acordo com a variante padrão da língua portuguesa:

 

 

 6. Qual é o fato inesperado e surpreendente que acontece na história do texto 02?



7       Relacione as palavras destacadas às personagens a quem elas se referem no texto 02:

 

a.       " – Posso falar com ELE?"                                                   (         )  Mãe do bebê.

b.       "- É. ELE "tlôce" uma equipe de busca."                             (         )  Pai do bebê.

c.       "- O que ELE está fazendo aí?                                             (         )  Policial.

d.      "- ELA pode falar comigo?"                                                 (         )  Helicóptero.  


Mensagem de Boas Vindas

Nem nas mais das absurdas previsões imaginaríamos que num curto período de tempo mudaríamos todos os nossos velhos hábitos e estaríamos imer...