quinta-feira, 8 de abril de 2021

Fake News e Verbos de elocução - Texto Genealogia da desinformação

 Genealogia da desinformação

A histeria com as fake news parece recente, mas é bem antiga a história de mentiras publicadas como se fossem verdade. Dos imperadores romanos ao bebê diabo brasileiro, passando pelos jornais que noticiaram a existência de vida na Lua ou pelo programa de rádio que contava a invasão marciana da Terra, a desinformação não pode ser vista como uma novidade. A criatividade e a falta de compromisso com a informação do público parecem não ter mudado tanto com o tempo. O que muda é a velocidade de propagação e o tamanho do público que tem acesso a esses boatos - além dos danos que eles causam. A seguir, dez momentos que ajudam a perceber o quanto é antiga a preocupação com informações questionáveis em meios de comunicação.


1. A roupa nova da imperatriz


Depois de publicar uma história oficial enaltecendo o imperador romano Justiniano, no século VI, o historiador bizantino Procópio deixou um manuscrito de sua História secreta, ou Anecdota, para ser publicado somente após sua morte. Nessa nova versão, que o historiador Robert Darnton considera uma das mais antigas fake news, Procópio espalhou informações bastante questionáveis para acabar com a reputação dos governantes que havia elogiado antes [...]

Glossário

Histeria: comportamento excessivamente emotivo.

Bizantino: relativo ao Império Bizantino (330-1453 d.C.).

3. Notícias da taverna

Quadrinho de Frederick Burr Opper (1894).

Quando os jornais começaram a se organizar como forças políticas, no século XVIII, muitos escritores corriam pelos bares e cafeterias para compilar fofocas, escrevendo relatos curtos para difamar os poderosos e cidadãos comuns. Depois, esses textos eram editados em jornais e anunciados pelas ruas, sem a preocupação de checar se eram verdade ou não. Na Inglaterra, esses autores eram conhecidos como "homens parágrafo", porque produziam histórias curtas, às vezes em uma só frase - eram os avós do Twitter. O historiador Robert Darnton lembra que alguns desses autores eram pagos, mas outros se contentavam em manipular a opinião pública para promover ou destruir carreiras. [...]

Glossário

Taverna: bar, botequim.

Sensacionalismo: divulgação de notícias exageradas com a finalidade de chocar a opinião pública, sem preocupação com a verdade dos fatos.

5. O preço do sensacionalismo

Quando os jornais ganham grandes tiragens, viram empresas lucrativas e suas notícias deixam de ser destinadas somente a uma minoria na elite, seus donos percebem que os relatos mais amalucados podem trazer uma boa grana. Surge a chamada "imprensa marrom", jornais populares, muito baratos e com uma linguagem e temática mais simples, próxima do interesse da maioria da população, que começa a se alfabetizar. Nos Estados Unidos, esses jornais custavam só um centavo, e com isso conseguiam vender centenas de milhares de exemplares.

Em 1898, jornais americanos retrataram a explosão do navio Maine, que estava em Cuba, como um ataque espanhol, e fizeram uma campanha aberta que levou à guerra entre Estados Unidos e Espanha. Segundo o historiador Edwin Emery, a causa da explosão não estava muito clara, e dificilmente envolvería um ataque direto da Espanha: provavelmente foi alvo de sabotagem interna ou por parte dos cubanos, que queriam forçar a intervenção dos Estados Unidos na ilha.

Mas os editores dos jornais estavam interessados mais na guerra e na venda dos jornais do que nas provas, e essa campanha sensacionalista conseguiu seu objetivo: os dois países entraram em conflito no mesmo ano, com uma cobertura aprofundada dos periódicos. [...].


7. A vida dos mortos, uma "reportagem ficcionista"

O repórter David Nasser e o fotógrafo Jean Manzon formavam uma das duplas mais famosas do jornalismo brasileiro. Quando a revista O Cruzeiro trouxe a notícia da morte de Manzon após um atropelamento, em 6 de maio de 1944, a comoção foi generalizada: diversos jornais repercutiram a tragédia, a redação da revista recebeu coroas de flores e até a assessoria do presidente Getúlio Vargas ligou para lamentar a perda.

A edição seguinte trazia, entretanto, o fotógrafo vivinho, no bar, cercado das flores que foram enviadas em homenagem à sua "morte". A legenda da foto avisava que tudo se tratava de uma "reportagem ficcionista", inventada pelo fotógrafo e escrita pelo colega. Luis Maklouf Carvalho conta, em sua biografia de David Nasser, que a macabra pegadinha tinha sido autorizada pelo proprietário do jornal, Assis Chateaubriand, que, ao contrário de se enfurecer com a falta de profissionalismo de seus jornalistas, adorou a iniciativa.

A morte caiu bem. Com mais espaço e prestígio na revista, Manzon e Nasser continuaram a inventar e a exagerar suas histórias. [...].


Revista O Cruzeiro (1944).


9. Injustiça com as próprias mãos

Um retrato falado circula entre os membros da página "Guarujá Alerta", no Facebook. Junto com ele, surge o boato de que a suspeita era acusada de sequestrar crianças para rituais de magia negra. No dia 3 de maio de 2014, dezenas de pessoas cercam a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, porque acham que ela é parecida com a mulher retratada. Enfurecidos, lincham Fabiane, que morre dias depois.

Os agressores ignoravam que, na verdade, essa imagem havia g í sido feita pela polícia do Rio de Janeiro em um caso não relacionado | j de tentativa de roubo de bebê, dois anos antes e a quase 500 km de ó í distância. Fabiane era inocente e foi executada sem chance de se | I defender. Como o linchamento foi filmado por um celular, muitos 1 | agressores foram identificados e acabaram condenados a até 40 Í anos de prisão por matar - seguindo um boato sem fundamento.


10. 2016: votando com fé

O ano de 2016 marcou a ascensão das chamadas fake news, como a história falsa de que o papa Francisco apoiaria a candidatura de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos - mais de 900 mil pessoas interagiram com essa história pelo Facebook.

Uma série de reportagens começou a desmascarar sites que estavam inventando essas mentiras para ganhar dinheiro enganando

leitores e eleitores. Com isso, o dicionário Oxford elegeu como palavra do ano de 2016 o termo pós-verdade, que trata das "circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos emocionais ou crenças pessoais".

Caricatura de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, informando-se por meio de fake news.

Vaza, Falsiane! Disponível em: <https://vazafalsiane.com/conteudos/como-saber-se-e-verdade/#1.5>. Acesso em: 17 ago. 20


O texto em construção

1. Observe que o artigo apresenta vários subtítulos. Qual a função deles no texto? Faria diferença se não houvesse subtítulos? Explique.

2. Retorne às ilustrações e às fotos presentes na reportagem e responda: qual a finalidade das legendas fotográficas?

3. Na sua opinião, que outras informações as legendas podem conter?

4. Observe os verbos nos trechos abaixo usados pelo autor para introduzir as vozes dos autores que compõem o seu texto.

Trecho 1

“Nessa nova versão, que o historiador Robert Darnton considera uma das mais antigas fake news, Procópio espalhou informações bastante questionáveis para acabar com a reputação dos governantes que havia elogiado antes.”


Trecho 2

“O historiador Robert Darnton lembra que alguns: desses autores eram pagos, mas outros se contentavam : em manipular a opinião pública para promover ou destruir carreiras.”


Trecho 3

“Luis Maklouf Carvalho conta, em sua biografia de : David Nasser, que a macabra pegadinha tinha sido auto-: rizada pelo proprietário do jornal, Assis Chateaubriand, : que, ao contrário de se enfurecer com a falta de profissionalismo de seus jornalistas, adorou a iniciativa.”


a) Faria alguma diferença se o jornalista tivesse usado sempre uma mesma forma verbal em todos os casos, sem variar os verbos de elocução?


b) No trecho 2, o jornalista cita informações apresentadas por Luis Maklouf Carvalho na biografia de David Nasser. Que informações são essas?


5. Veja a seguir algumas das fontes usadas para a produção do artigo que você leu, e que aparecem no final do texto:
CARVALHO, Luiz Maklouf. Cobras criadas: David Nasser e o Cruzeiro. São Paulo: Senac, 2001.

DARNTON, Robert. Os best-sellers proibidos da França pré-revolucionária. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

DARNTON, Robert. “Blogging, Now and Then”. The New York Review of Books, 18/3/2010.

DARNTON, Robert. “The True History of Fake News”. The New York Review of Books, 13/2/2017.

a) Considerando as informações que o autor traz sobre os autores consultados, os títulos de suas obras e também as informações sobre o lugar onde o artigo pode ser encontrado, você acredita que o histórico sobre notícias falsas é confiável? Explique.

b) Quais podem ter sido as fontes consultadas sobre os casos de Fabiane e a eleição de Donald Trump?



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